A História de Fabiano Quirinda: De um Videogame SEGA em Luanda a Fundador de uma Empresa de Tecnologia
Uma história sobre como um jovem angolano que aprendeu a ler aos 11 anos, programava no papel e trabalhava num cyber café, decidiu construir uma empresa de tecnologia para resolver problemas reais dos angolanos.

Em muitos lugares do mundo, histórias de fundadores de tecnologia começam em garagens modernas, universidades prestigiadas ou famílias com acesso antecipado à internet e computadores de última geração. A história de Fabiano Quirinda começa de forma completamente diferente. Ela começa em Angola, num ambiente simples, num contexto de limitações profundas e, principalmente, com uma curiosidade extrema que se recusava a aceitar o impossível. Não havia aceleradoras, nem mentores, nem capital semente. Havia apenas uma mente inquieta, uma determinação feroz e uma promessa silenciosa feita a si mesmo: um dia, construiria algo próprio no mundo da tecnologia.
O Videogame Que Mudou Tudo

Fabiano António Quissanga Quirinda descobriu a sua paixão pela tecnologia ainda muito jovem, através de um videogame SEGA que pertencia aos seus primos. Na época, enfrentava dificuldades consideráveis até mesmo com a leitura — aprendeu a ler relativamente tarde, por volta dos 11 anos, e soletrava palavras com esforço. Ainda assim, algo incomum e fascinante acontecia: ele memorizava códigos inteiros do videogame num caderno cheio de anotações manuscritas. Passava noites inteiras na casa dos primos, jogando até altas horas da madrugada, frequentemente até às 3 da manhã, absorvendo cada detalhe daquela máquina que parecia viva.
O videogame não era apenas entretenimento. Foi o primeiro contacto emocional com sistemas, lógica, interação e tecnologia. Naquele período, ainda sem compreender totalmente o que era programação ou como funcionavam os computadores, Fabiano fez uma promessa que carregaria para sempre: um dia criaria o próprio jogo. Essa promessa, aparentemente ingénua para uma criança que mal conseguia ler, revelou-se a semente de uma trajetória extraordinária. A obsessão com os códigos do SEGA ensinou-lhe algo que nenhum curso poderia transmitir: que por trás de cada ecrã, de cada interacção, existe um sistema lógico que pode ser compreendido, desmontado e recriado.
A frequência com que faltava à escola por causa do videogame poderia ser vista como um problema, mas na verdade era o sintoma de uma mente que já estava a programar antes de saber que programação existia. O caderno cheio de códigos não era apenas uma colecção de truques de jogo — era o primeiro programa de Fabiano, escrito em papel, muito antes de qualquer computador entrar na sua vida.
Crescer Sem Recursos Tecnológicos
Diferente de muitos jovens que tiveram acesso precoce a computadores, tablets e internet de banda larga, Fabiano teve contacto com um computador funcional apenas aos 21 anos. Essa é uma realidade que a maioria dos fundadores de tecnologia no mundo desenvolvido simplesmente não consegue imaginar. Enquanto adolescentes em Silicon Valley já programavam aos 12 anos com laptops próprios, Fabiano escrevia código C e C++ no papel, sem nunca ter visto um compilador a funcionar em tempo real.
O seu primeiro smartphone que realmente mudou a sua vida veio apenas em 2022, quando tinha 19 anos: um Samsung Galaxy J6 com Android 4. O aparelho foi comprado pela sua mãe — uma mulher que, apesar das limitações financeiras, reconhecia a importância daquele dispositivo para o futuro do filho. Fabiano chorava frequentemente pela limitação que sentia sem acesso à tecnologia, e a sua mãe, com sacrifício, atendeu àquele pedido que parecia simples mas que se revelaria transformador.

Esse detalhe pode parecer pequeno para quem cresceu rodeado de tecnologia. Mas foi um divisor de águas absoluto. Porque aquele dispositivo Samsung tornou-se simultaneamente: biblioteca pessoal, sala de aula virtual, ferramenta de programação improvisada e laboratório de aprendizado. Através daquele pequeno ecrã, Fabiano acedeu a mundos que antes estavam completamente fora do seu alcance — tutoriais de programação, documentação técnica, vídeos de universidades prestigiadas, comunidades de desenvolvedores. O Samsung J6 não era apenas um telefone; era a ponte entre a ambição e a possibilidade.
Aprender Inglês Sem Cursos
Sem cursos pagos. Sem intercâmbio. Sem professores particulares. Sem ambiente bilíngue em casa. Fabiano aprendeu inglês sozinho. Assisitindo vídeos no YouTube, lendo conteúdos técnicos, consumindo tecnologia diariamente em inglês, forçando-se a compreender documentação que não existia em português. Esse processo não foi casual nem passivo — foi deliberado, obsessivo e sistemático. Ele percebeu cedo que o mundo da tecnologia fala inglês, e que sem essa língua, estaria sempre dependente de traduções atrasadas e conteúdos de segunda mão.
O mesmo método autodidata aplicou-se à programação. Antes mesmo de possuir computador, escrevia código C e C++ no papel: "hello world", pequenos jogos de adivinhação, programas simples que faziam o print de alguma coisa ou calculavam algo. Era uma tentativa quase simbólica de programar sem máquina — como um músico que compõe melodias na cabeça antes de tocar um instrumento. Mas aquilo desenvolveu algo extremamente importante e duradouro: lógica de programação. A capacidade de pensar algoritmicamente, de estruturar problemas em passos sequenciais, de visualizar o fluxo de dados antes de escrever uma única linha de código executável.
A fluência em inglês não foi apenas uma competência linguística — foi uma ferramenta de libertação intelectual. Com inglês, Fabiano pôde aceder ao CS50 de Harvard, à documentação oficial de Python, aos repositórios do GitHub, aos fóruns de Stack Overflow, aos vídeos de conferências técnicas globais. Sem inglês, estaria confinado a uma fracção minúscula do conhecimento disponível. Com inglês, o mundo inteiro da tecnologia se abriu diante dos seus olhos.
O Primeiro Computador
Em 2023, o seu pai conseguiu um computador de segunda mão. Tudo mudou. Literalmente. Pela primeira vez, Fabiano podia transformar teoria em prática, passar do papel para o ecrã, ver os seus códigos a funcionar de verdade. Aquele PC usado, provavelmente sem grande potência, representava para ele o que um laboratório de ponta representa para um cientista — o espaço onde a imaginação se torna realidade.
Passou a estudar intensamente: programação em Python, ciência da computação, lógica de algoritmos, automação de processos. Utilizava Notepad++ como editor de código, PDFs descarregados como material de estudo, vídeos gratuitos como mentorias virtuais, e documentação oficial como referência permanente. Em 2024, migrou definitivamente para Python, codando diariamente em Notepad++ enquanto assistia a vídeo-aulas de programação com uma dedicação quase monástica.
Uma das maiores influências neste período foi David Malan, professor de Harvard conhecido pelo curso CS50 — Introdução à Ciência da Computação. Os conteúdos gratuitos do CS50 tiveram impacto profundo não apenas na formação técnica de Fabiano, mas na sua mentalidade como futuro engenheiro de software. Aprender com um dos melhores professores de computação do mundo, gratuitamente, através de um ecrã de telemóvel e depois num PC de segunda mão, é uma experiência que molda a forma como se vê o conhecimento: como algo que deve ser acessível, democrático e transformador.
O computador compartilhado com a família significava que Fabiano só podia usar o PC em horários específicos. Exceto aos sábados e domingos, quando os outros membros da família precisavam do equipamento, ele passava diariamente mais de 8 horas ligado ao ecrã, absorvendo conhecimento a uma velocidade que só a obsessão permite. Essa intensidade — aprender mais em meses do que muitos aprendem em anos — tornou-se a assinatura do seu percurso.
Excel, Access e a Mentalidade de Sistemas
Antes mesmo de entrar profundamente no desenvolvimento web, Fabiano mergulhou no mundo das planilhas, automação, lógica de fórmulas e organização de dados. Criava planilhas para tudo: finanças pessoais, controlo de tempo, organização de tarefas, cálculos complexos. O aplicativo de planilha do telemóvel era o seu IDE improvisado, onde construía pequenos sistemas que resolviam problemas reais do seu dia-a-dia.
Esse período foi extremamente importante porque desenvolveu capacidades fundamentais: pensamento lógico estruturado, modelagem de sistemas de informação, organização mental para resolver problemas complexos. Muito da forma como hoje pensa software — a arquitectura, os fluxos, as relações entre dados — veio também da experiência visceral com Excel e Access. As fórmulas condicionais, as referências entre folhas, as macros básicas — tudo isso era programação disfarçada de planilha, e Fabiano percebeu isso intuitivamente.
A lógica das planilhas com fórmulas ajudou-o especialmente na época em que escrevia código no papel, copiando sintaxes do telemóvel vendo PDFs. Havia uma ponte natural entre a lógica das células do Excel e a lógica das linhas de código: ambas exigiam pensar em termos de entrada, processamento e saída. Ambas exigiam precisão — um erro numa fórmula ou num ponto e vírgula produzia resultados inesperados. Essa disciplina transferiu-se naturalmente para a programação formal.
O Ensino Médio e o Primeiro Trabalho
Fabiano terminou o ensino médio técnico no curso de Contabilidade Financeira, período que decorreu entre 2020 e 2024. Em abril ou maio de 2024, defendeu o seu TCC — o Trabalho de Conclusão de Curso — e obteve a nota mais alta do seu grupo: 18 valores. Essa conquista, alcançada por alguém que aprendeu a ler tarde e que tinha dificuldades com a leitura na infância, é particularmente significativa — demonstra que a determinação pode superar qualquer déficit inicial quando existe obsessão genuína por aprender.
Apenas três semanas após a formação, foi indicado para uma vaga numa empresa chamada Incodes, para trabalhar com Excel. Como passava diariamente mais de oito horas com o PC — excepto aos sábados e domingos, porque o computador era partilhado pela família — já tinha desenvolvido um domínio considerável de Excel e Access. Um conhecido que sabia da sua proficiência indicou-o para a vaga. Fez a entrevista e o teste, e no dia seguinte foi informado para ir trabalhar.
Na empresa, trabalhou não apenas com Excel mas também na logística e na administração, como assistente de um contabilista que lhe passava experiência profissional. Foi a primeira vez que ganhou um salário do seu próprio esforço: sessenta mil Kwanza por mês. Para um jovem de 22 anos vindo de um contexto de escassez, aquele primeiro salário representava não apenas dinheiro, mas a prova de que o seu esforço tinha valor no mercado.
A Decisão Que Mudou Tudo
Ficou quase quatro meses na empresa — entrou em junho e saiu no final de agosto de 2024. A razão da saída é o que torna esta história diferente da maioria: não foi demitido, não houve conflito, não houve crise. Saiu porque sentia que estava a trair os seus sonhos. Embora houvesse quem criticasse a sua decisão — afinal, abandonar um emprego estável sem plano B não é exactamente o que a sociedade espera de alguém prudente — Fabiano até hoje não se arrepende e faria novamente.
Aquela era uma média empresa, e ele desde pequeno sempre teve o sonho de abrir uma empresa de tecnologia. Sentia que aquele momento, aquela fase, estava a trair os seus sonhos e objectivos de vida. E sem plano B, sem saber o que lhe ia acontecer, sem garantia de qualquer tipo, saiu. É importante compreender a dimensão desta decisão: um jovem angolano, sem formação universitária, sem rede de contactos influente, sem poupanças significativas, abandona a sua única fonte de rendimento porque sente que não está no caminho certo. Isso não é imprudência — é coragem visionária.
O mês de setembro foi passado desempregado. A pressão social, as perguntas da família, a incerteza financeira — tudo conspirava contra a sua decisão. Mas Fabiano mantinha algo que o dinheiro não compra: clareza sobre o que queria construir. E essa clareza era mais forte do que qualquer medo.
O Cyber Café Que Transformou a Trajectória
Em outubro de 2024, um amigo recomendou-o para uma vaga num cyber café chamado Cyber SM. Fez a entrevista, foi tratado com respeito e foi aceite. Aquilo era exactamente o que precisava. Porquê? Na antiga empresa, tudo era monitorizado e não havia liberdade para fazer qualquer coisa ligada aos seus interesses pessoais e profissionais. Mas neste Cyber, por ser uma micro empresa, havia muito mais liberdade — e foi aí que tudo começou de verdade.
O Cyber SM oferecia algo que nenhuma empresa tradicional poderia oferecer a um futuro fundador de startup: contacto diário com utilizadores reais, observação de dores reais, experiência operacional com documentos e serviços, acesso a internet consistente, e flexibilidade para programar nos momentos de pouco movimento. Nos períodos de férias, quando o fluxo de clientes diminuía, Fabiano utilizava o computador da empresa — que era significativamente mais potente que o PC de casa — para programar, estudar e construir os seus projectos.
Foi neste ambiente aparentemente modesto que a visão começou a ganhar forma concreta. O cyber café não era apenas um local de trabalho — era um laboratório de observação de mercado, uma incubadora informal onde cada cliente que entrava representava um dado, um insight, uma dor a ser resolvida. E Fabiano estava a absorver tudo.
Enquanto trabalhava no Cyber SM, Fabiano via todos os dias a mesma cena repetir-se: pessoas que entravam no cyber para criar documentos — facturas, declarações, contratos, currículos — e pagavam a terceiros para os fazer, porque não sabiam fazê-lo sozinhos, ou porque não tinham tempo. A pergunta que se instalou na sua mente foi simples, mas transformadora: "Porque é que uma pessoa não pode criar o seu próprio documento profissional, no telemóvel, em minutos, sem depender de ninguém?"
Essa pergunta tornou-se a semente de um sonho maior. A partir daquele momento, cada momento de pouco movimento no cyber tornou-se uma sessão de programação — escrevia código, desenhava interfaces, testava funcionalidades. Percebeu que o mercado tecnológico angolano era dominado por soluções importadas que ignoravam as particularidades locais. Foi assim que nasceu a Quirinda DevTech, não como uma empresa com escritório e financiamento, mas como a ideia de que Angola pode e deve produzir tecnologia própria, feita por angolanos, para resolver problemas angolanos.
Conclusão
A história de Fabiano Quirinda não é apenas uma biografia — é um manual vivo de empreendedorismo em contexto de escassez. Cada obstáculo que encontrou — a falta de computador, a dificuldade com a leitura, a ausência de cursos de programação, a dependência de um telemóvel emprestado — tornou-se combustível para uma intensidade de aprendizagem que poucos conseguem igualar.
O SaberAngola não nasceu de uma trends report ou de uma sessão de brainstorming num coworking de luxo. Nasceu da observação paciente das dores reais dos angolanos, num cyber café em Luanda, por um jovem que percebeu que a tecnologia pode resolver problemas que a sociedade normalizou como inevitáveis.
Para jovens developers angolanos que sonham em criar tecnologia, a trajectória de Fabiano mostra que é possível — com formação sólida, visão clara e muito trabalho — construir produtos de classe mundial partindo de Angola para o mundo. Porque o mercado tecnológico africano está apenas a começar, e precisa de vozes que conheçam a realidade local para o transformar.

Equipa SaberAngola
Conteúdo Editorial
Equipa do SaberAngola dedicada a produzir conteúdo educativo e prático para a comunidade angolana.
Pronto para criar os seus documentos?
O SaberAngola ajuda-o a gerar documentos profissionais em minutos, seguindo todas as normas angolanas.
Artigos Relacionados

A História da Quirinda DevTech: De um Cyber Café em Luanda a uma Empresa de Tecnologia

A História do SaberAngola: O Produto Inspirado Nos Cybers Angolanos
